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20/10/07

:: IriNa PaLmEr? NÃo. mUiTo MeLhOr! :: parte I

 

 

 

Sexta-feira, dia 19 de outubro. A ansiedade não me permite concentrar nas tarefas do cotidiano que tenho que realizar. O motivo? O primeiro dos 14 dias de filmes da 31a. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e a minha participação nesse festival de orgia cinematográfica deliciosamente cultural. Como espectadora, claro. 461 filmes. Desejo de poder ser testemunha de todos. Frustração de saber que não é possível. Enfim…

Como saio às 21h do trabalho às sextas-feiras, não seria possível estar presente logo na primeira sessão, fosse ela em qualquer uma das 20 salas onde estão sendo exibidas as películas… Paciência. Decidi então pular o meu intervalo de "lanchinho" no trabalho, para poder sair uma hora mais cedo e poder assitir a pelo menos 2 filmes. Totalmente contra a minha vontade, morrendo de fome, acabei saindo do trabalho às 21h mesmo e tendo que me conformar que, se desse sorte, ainda conseguiria estar presente em pelo menos UM dos nove longas que haviam me interessado para essa noite de estréia para a população "não-VIP".

E ainda assim, arranjei tempo de compartilhar com meus colegas de trabalho que eu trocaria as minhas férias perfeitas, de 30 dias, com a oportunidade de conhecer a Paraíba e Pernambuco, por todos os filmes da Mostra. Sim. Fiz isso. Melhor não pensar mais nas palavras que já foram ditas. E minhas férias já aconteceram. Até a semana passada eu ainda gozava dessa ocasião que me é tão rara.

Às 21h40, meu namorado e eu, em pleno trânsiro da avenida Dr. Arnaldo, discutíamos as opções que poderiam ser positivas para um final de noite… Apesar de ser um pouco clichè, sim, admito que optamos por "Império dos Sonhos", de David Lynch. Às 22h50. Pinheiros. IG Cine, antiga Sala UOL. Sim, Fradique Coutinho, um pouco longe de onde estávamos. Para não correr o risco de chegarmos ao nosso tão desejado destino Lynchiano e não escontrarmos mais ingressos, optamos por "um longa mais perto dali". Sem intenção de soar infame.

As outras prováveis opções para a noite eram "Estômago", de Marcos Jorge e "Irina Palm", do queridísimo Sam Garbarski ("O Tango de Rachevski")… Pensávamos: "Estômago ou Irina, Estômago ou Irina?!". Decidimos. "Estômago". Cinesesc. Pontualmente às 22h40. Ou não. Já que ao chegarmos, havia um informativo na bilheteria avisando que os horários de exibição de "Iluminados", de Cristina Leal e "Estômago" haviam sido alterados. Adiados. Em pelo menos uma hora.

Já que quem está na chuva é para se molhar, resolvemos esperar. Sem problemas. Não fosse o fato de abrirmos nossas carteiras e encontrarmos nada mais que nossos cartões de débito e crédito e descobrirmos em seguida que o Cinesesc só estava aceitando pagamentos em dinheiro. Fazer o quê? Ainda tínhamos uma segunda opção, ainda válida, caso houvessem lugares nas poltronas do Unibanco Arteplex 1 do shopping Frei Caneca, não muito longe da Rua Augusta número 2075. Irina. Era o que iríamos ver.

"Irina Palm". Exibição às 23h. Pontuais. Ou quase. Não fosse o curta exibido anteriormente, com a presença do diretor (Lelouch) e um bate-papo com os espectadores. Meia hora de atraso, creio. Mas conversa vai e conversa vem, nem senti o tempo passar. Entramos. Sem pipoca, nem refrigerante. Acabáramos de jantar. Só o que precisávamos era assistir algo que nos interessava. Melhor do que pipoca com manteiga.

(continua…)

criado por girli_e    3:30 — Arquivado em: Sem categoria

:: IriNa PaLmEr? NÃo. mUiTo MeLhOr! :: parte II

 

 

Sala não muito cheia. A diversão está para começar! Não a do filme. A paralela. Como assim?! Ora, as luzes se apagam. Um certo senhor, provavelmente em seus 60 anos, reclama em altos brados da escuridão que tomou conta do lugar. Bastante escuro. Nada mais do que o esperado, pelo menos por mim, para uma sala de cinema. O som aparece, mas a imgem não surge na telona. De repente, pipoquinhas com olhinhos, perninhas e boquinhas, aparecem congeladas. Não de frio. Problemas técnicos. Segundos depois, o filme se inicia, sem resquícios de fatos passados. Imagem limpa. Finalmente!

E a diversão não pára. Não a do filme. Ainda não. A paralela. Uma senhora à qual não posso atribuir qualquer palpite de faixa etária, por estar sentada muito atrás de mim, grita: Abaixa o volume!!!". E todos caem na gargalhada. Silêncio. O filme começa de verdade. Diálogos concisos. O suficiente para acompanhar as posições e os jogos de câmeras que me atraíram de imediato. Closes e cores que doavam harmonia àquele cenário frio e necessário ao enredo. "Uma viúva de 50 anos que aceita trabalhar em um sex shop para ajudar o neto doente". Sinopse oferecida por quases todos os veículos que consultei para incluir esta película na lista das produções que eu esperava (e espero) assitir durante esses 14 dias de Mostra.

Ansiosa para saber do que realmente se tratava a história de Irina, sofro com mais uma tentativa de não deixar a peteca da diversão paralela cair… Ouço, assim como a sala toda, o sonoro e irritadiço "esse filme é para surdo?????!" daquele certo senhor. Como se fosse fazer alguma diferença o volume do som para os deficientes auditivos. E não estou sendo irônica. Sensata.

Mais alguns minutos de silêncio e diversão voltou a atentar ao meu pudor. O senhor vai até o lado de fora da sala reclamar. O volume foi baixado (para mim, não havia nada de desconfortável… Será que a minha audição já está tão desgastada assim no auge dos meus 20 e poucos anos?! Me preocupei. Mas logo me acalmei, tentando ainda me focar naquele desenrolar de situações fictícias que apareciam para mim na tela gigante.) Crendo que a diversão ficaria somente por conta do filme, me engano. Infelizmente.

O filme, até então, estava se mostrando um Chocolate Surpresa, daqueles que eu adorava comprar quando era pequena, que vinha com uma foto de bicho diferente a cada embalagem… Se estou "viajando"? Que nada. Eu comprei uma viúva que aceitou trabalhar em um sex shop e ganhei uma viúva que, na verdade, foi procurar emprego num puteiro. A não ser que na Inglaterra e países ao redor da Europa sex shop seja sinônimo de casa da luz vermelha. Eu já estive nos Estados Unidos e no Canadá. E moro no Brasil. Nem lá, na américa do norte, nem aqui, na terra do samba, do futebol e das mulatas gostosonas, sex shop possui palquinhos com mastros rodeados por profissionais do sexo. Não necessariamente. Posso estar enganada, mas não creio que na Europa seja assim. É? Enfim…

Irina Palm (que seria chamada de Irina Palmer, com certeza, caso fosse dirigida para aparecer em algum longa Lynchiano), surpreende. Apesar de trabalhar numa boate onde clientes vão satisfazer suas necessidades primitivas em troca de algumas libras, ela não é puta. Mesmo sofrendo de um mal chamado "cotovelo de penista" (criação divina!!!). Muito pelo contrário. Faz de uma história que poderia seguir o jargão dos dramas que obrigam aos mais sensíveis debulharem-se em lágrimas, uma ficção leve, suave, inspiradora e empolgante. Nada de debulhações. Provoca sorrisos, suspiros e risos, ah sim, muitos risos e risadas. Reações que não agradaram em nada àquele certo senhor.

Em meio ao desenrolar da trama, e em meio aos risos da platéia, ele não se conteve: "Mas estão rindo do quê?!", "Isso não é comédia!", "Tão achando que é o programa do Faustão?!", "Não é pra rir!"… E como anti-tolerância tarda mas não falha, não demorou muito mais para as respostas serem colocadas para fora à altura: "Shhhhhh!!!", "Isso aqui é cinema!", "Ahhh, pelamordedeus, né?!", "Não gostou, cai fora!", "Lugar de velho é no bingo!"… E para a diversão não encontrar seu fim no circo todo, o contra-ataque não calou: "Eu falo mesmo! Se eu achar que eu tenho que falar, eu vou falar!", "Eu vou falar mesmo!".

Se Sam Garbarski não tivesse realizado um excelente trabalho, o foco no circo seria bastante frustrante, pois faltariam os macaquinhos, os poodles adestrados, a mulher barbada e os trapezistas. Não não houve espaço para tanta frustração. Sam cumpriu seu papel de não deixar isso acontecer. Fora do circo, garantiu a diversão cultural real. Garantiu além… Garantiu que eu não sentisse tanta falta assim de David Lynch lá em Pinheiros, garantiu que eu não sentisse falta de um "Estômago", garantiu, inclusive, uma cena final que correspondeu exatamente ao que o público esperava. E olha que nem estou me referindo ao netinho doente. nada disso. melhor que isso. Mas só assistindo para saber. Digo isso por todos, ou quase todos, ok. Por aqueles dos quais eu ouvi os sussuros de satisfação com o estalo final, que antecedeu aos créditos finais.

Na saída, mesmo com as luzes que não fizeram questão de serem acendidas, mesmo com o certo senhor criticando a película para uma senhorita com a qual cruzou no corredor do lado de fora, mesmo com a diversão à qual eu não paguei para presenciar, mesmo ao olhar no relógio e ver que os ponteiros já marcavam 01h14 (tenho que estar de pé amanhã às 6h30 - e estou escrevendo esse relato antes disso), mesmo não tendo conseguido sair precisamente às 20h do meu trabalho, eu posso me considerar uma espectadora feliz. Satisfeita. E nem um pouco estressada. Mesmo porque a lista para amanhã já está feita e eu, em momento algum, vou permitir que diversões paralelas não me permitam gozar ao final dessa orgia. E digo isso com o maior respeito! É cultura! E faz bem! Ainda faltam 13 dias.

 

Irina Palm, de Sam Garbarski.
Alemanha / Bélgica / França / Inglaterra / Luxemburgo
2006
103 minutos

 

criado por girli_e    3:29 — Arquivado em: Sem categoria
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