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23/10/07

:: SoS, de MiChAeL MoOrE :: parte II

 

 

 

E o filme começa a ser projetado na deusa. E aquela voz começa a narração. Eu seria capaz de identificar a voz de Mr. Moore, o Michael, dentre uma aglomeração de milhares de pessoas. Eu poderia estar no show do Marilyn Manson, do Aerosmith, Pearl Jam, Linkin Park, Madonna, como já aconteceu, e eu reconheceria a voz de Michael Moore cantando no meio da multidão! Fanática? Não.

"SoS Saúde", ou "Sicko", é mais do mesmo, sim! Mas como poderia ser diferente?! É Michael Moore, oras (sim, eu sei que estou repetitiva escrevendo o nome dele a cada espaço que tenho agora… Minhas sinceras desculpas).

Eu sei que eu e todas as outras pessoas aficionadas ou interessadas ou até curiosas a respeito da Mostra devem ter lido as sinopses em geral (que não necessariamente correspondem à realidade - a não ser as que estão no livro oficial). E lendo algo como "o diretor de Farenheit 11 aponta a câmera desta vez ao problemático sistema de saúde dos EUA", as pessoas talvez não tenham uma idéia muito precisa do que realmente o documentário se trata.

E eu digo: se trata de realidade. Nua e crua. Eu nunca estive na Inglaterra, na França ou em Cuba. Espero um dia ter a oportunidade de conhecer todos os lugares do mundo. Mas já estive nos EUA e no Canadá. E posso dizer por experiência própria, que sim, pelo menos no que se trata de América do Norte, Michael Moore retrata a realidade sem perfumarias.

Durante o período em que vivi fora do Brasil, em Arligton, Virgínia, pertíssimo de Washington, DC, a capital da terra do titio Sam (que eu amo e admito sem rubores) , precisei de cuidados médicos 2 vezes. A primeira vez, precisei de um oculista, pois eu havia perdido meus óculos. Eu tinha seguro de saúde, que me permitiu obter um desconto na consulta. Ok. Fui. Na hora de fazer os óculos, tenho certeza que eles incluíram o desconto no valor das lentes (simples, de astigmatismo), tão absurdo o valor que eu teria que pagar. E olha que a armação eu havia comprado num vendedor de rua em Georgetown por Us$20. Desisti. Preferi voltar para casa e pedir para São Longuinho. Achei meus óculos 2 semanas depois.

Na segunda vez que precisei de cuidados médicos, foi mais complicado. Eu tinha 20 anos, considerada "menor" para beber em festas, boates e afins. Mas saía e às vezes bebia os famosos "Long Island" e "Sex on the Beach" com minhas amigas e namorado na época. Eu nunca gostei de bebidas alcoólicas, mas bebia socialmente para "causar". "Coisa de jovem", como diz meu pai. Desta vez, fomos à uma boate chamada "Glow", que eu adorava. Na porta, ao entrar, recebo um "X" em cada mão, com aquelas canetas piloto que fedem a álcool. Sinalização para não me venderem bebidas alcoólicas.

O único detalhe era que eu estava na companhia de 5 amigas entre 22 e 25 e um namorado de 26. E o "X" me impediria de beber? Ha-ha. E foi o que fiz. Long Island, Sex on the Beach, Vodka com energético, 1, 2, 3, 4. Fraca com álcool como sou, não durei metade da minha noite. A única sorte é que quando tocou "Hide U", da banda Kosheen, que eu adoro, eu ainda estava sóbria. Por um momento que me afastei para ir ao banheiro, encontrei a Yalanta, minha amiga da Letônia, pedi ajuda, disse que estava mal, fui procurar o resto do pessoal e… apaguei.

Chamaram a ambulância. Paramédicos. Coma alcoólico. "Responsável pela garota?", "Quem deu bebida para ela???", "Quem vendeu bebida para ela?". Resultado: ninguém poderia se culpar. Minhas amigas eram estrangeiras, meu namorado, americano. Seria um grande problema para eles assumirem a responsabilidade da minha bebedeira. O culpado, então? A boate. Multa. Eu jamais poderia aparecer naquele lugar novamente. Hospital. Uma noite internada, soro e glicose. fazer o quê? Aprendi a lição quando sóbria, com aquela puta ressaca infernizando meu bem-estar. Vendo a cara de todos eles, as preocupações e os cuidados pós-sentimento-de-culpa por não terem se "entregado" à polícia que fazia aquelas perguntas que davam aquele nó na garganta.

Melhorei. Tudo bem novamente. Até eu receber duas correspondências: uma do departamento de bombeiros e outra do hospital. Uma conta a pagar pelos cuidados prestados pelos paramédicos, na ambulância e outra pelos cuidados médicos no hospital. Eu quse precisei de cuidados médicos novamente. Quase infartei quando vi o montante a ser pago. Eu não podia arcar com aquela despesa. Au Pair que recebe Us$140 por semana, que tinha uma conta rechonchuda no banco após um período de economia para a tão esperada viagem à costa oeste do país do sonho americano (Califórnia, Nevada, Arizona!!!), não poderia arcar. Não tem hospital público nos EUA? O seguro não cobre bebedeira??? Como assim?

Com a cara, a coragem, papel e caneta na mão, liguei para todos os lugares possíveis para conseguir o nome do diretor do hospital e do departamento de bombeiros. Consegui. Escrevi para cada um, uma carta explicando minha situação e dizendo que não teria como pagar. Insisti, tirei cópias dos documentos, insisti, fui, liguei, expliquei, exigi… Consegui não ter que pagar o hospital, além de um desconto de 70% no valor do serviço de ambulância. Sorte. Pura sorte.

Voltando a Michael Moore então… Eu sei exatamente como pode ser, levemente, a problemática da saúde no país sem defeitos. Sei como é no Brasil também, claro. Mas posso dizer? Somos muito melhores em vários aspectos. Às vezes não nos damos os devidos créditos. "A galinha do vizinho é mais gorda que a minha" - é assim que agimos. E vendo o documentário, que me fez chorar, rir, emitir sons guturais que expressavam meu descrédito, minha surpresa, minha alegria e minha decepção, vi que Michael Moore pode ser mais do mesmo, mesmo. Mas ele pode. Tem fundamento. E faz querermos, talvez, conhecer Cuba e acabar com o nosso preconceito ridículo. Conhecer Paris, ou qualquer outro lugar na França, para acabar com o "meu" preconceito. Conhecer a Inglaterra e confirmar que apesar das lendas, pode ser um lugar muito agradável de se conhecer. E o Canadá? Esse, eu já conheço. E lembro de alguém que precisou de cuidados médicos quando fui fazer turismo pós-fronteira, e que foi atendido exatamente da mesma maneira que Moore expõe no filme.

Vale a pena. Visitar esses lugares e assistir "SOS", do gordo que acha que pode. Ele pode mesmo!

criado por girli_e    10:29 — Arquivado em: Sem categoria

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