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28/10/07

:: SoMbRaS, de Milcho Manchevski… parte I ::

 

 

Segunda-feira. Dia 22. Pra variar, meu pensamento continua focado na 31a. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Comecei a trabalhar às 9h, sairia às 18h e duas horas mais tarde, às 20h precisamente, aula de Espanhol. Curso de Extensión. Sim, já estou no avançado. Orgulho para mim mesma. Não vejo a hora de ser fluente em mais uma língua. Enfim…

Decidi, após ter ficado de molho no domingo devido à enxaqueca do meu namorado (que quando chega, arrasa e vem pra ficar…), que eu teria que compensar… Mas como? Pensei. Mas não muito. E decidi: não vou à aula. Vou à Avenida Paulista (ou Cerqueira César, como preferir…), comprar o presente de aniversário do meu ser amado e em seguida, "coletar" mais um longa para aliviar minha tensão "Mostral".

Como meu namorado não estava ainda recuperado, optei por me arriscar à uma aventura da época de solteira (por mais que eu não me lembre a última vez em que me vi em tal situação)… Não, não se confunda. Eu sou fiel. Aprendi a prezar a fidelidade. O que digo é em relação à ir ao cinema sozinha. Só. Sola, como se diz em espanhol. Atitude olhada e julgada por muitos como "que dó, essa daí nem deve ter alguém para lhe fazer companhia", ou "ai, que solidão, programa de índio", ou até "essa deve ser mala, não deve ter amigos, muito menos namorado. Nem namorada deve ter".

Uma pena é saber que as pessoas não pensam, na maioria das vezes, que solidão em programas culturais não significa necessariamente "solidão". Nem todo mundo acredita que estar só pode ser uma escolha. E os sentimentos de dó e piedade, de desconfiança e pré-julgamentos se iniciam. Uma pena é perder tempo julgando a vida alheia. Mais uma vez, enfim…

Arrisquei. Sessão das 21h. Pontual. Juro! Quase nem acreditei. HSBC, Rua da Consolação, 2423. Esquina com a verdadeira Avenida Paulista. Fila longuíssima. E muitos, muitos seres humanos desacompanhados. Nem me senti observada como um alien. Eu era um deles. Sem julgamento.

Durante a espera para comprar o ingresso de "Sombras", de Milcho Manchevski, aquele Macedônico de Skopje, que já teve duas produções escolhidas para outras duas Mostras (a 18a. e a 26a., com "Antes da Chuva", seu primeiro longa, e "Poeira do Tempo"), comecei a conversar com dois seres humanos do sexo masculino, muito simpáticos e interessados no mesmo filme que eu.

Os três, digo, nós, assistiríamos "Sombras". Além de concordar que poderia ser uma película surpreendente, também concordamos com o pesar de haver atrasos em quase todas as sessões. Tudo bem, também concordamos que o interessante dos atrasos eram os fatos que aconteciam antes dos atrasos, os mesmos que ocasionavam os mesmos atrasos. As conversas, discussões, "tira-teimas" com os diretores dos filmes. Justo? Talvez. Irritante? Pode ser…

Comprei meu ingresso às 20h58 precisamente, comprei meu saco de pipoca média e minha (claro!) Coca-Cola média e me dirigi à sala da deusa. Que deusa? A que eu mencionei no texto sobre SOS, de Michael Moore. Deusa = tela gigante de cinema. As imagens iniciais já estavam sendo projetadas, as luzes apagadas e eu, desesperada para encontrar logo um lugar, coisa que para mim, sem óculos, é quase impossível. Eles estavam dentro da bolsa, oras…

Segui as luzes laranjinhas que são fixadas ao carpete, parei e esperei uma cena clara na tela para poder me locomover. Pronto! Achei meu lugar. Ninguém na minha frente. Ninguém atrás. Somente eu, a pipoca e a Coca-Cola. A bolsa também, claro. Algo meio "Me, myself and Irene", dos diretores (e irmãos) Bobby e Peter Farrelly, só que sem o "rene" de "Irene". Deu para entender?

E a jornada, para minha felicidade, se deu por iniciada. "Sombras", de Milcho Manchevski.

criado por girli_e    16:45 — Arquivado em: Sem categoria

:: SoMbRaS, de Milcho Manchevski… parte II ::

 

 

Início duvidoso, estranho. Eu havia lido que a trama era sobre a pressão e a cobrança de não sermos o que esperam de nós, ainda mais quando há alguém da família que é muito bem-sucedido na mesma área. Que também tratava da questão de maturidade, de quando um homem se torna um homem de verdade. E principalmente abordava a questão da morte e do que vem com ela e depois dela. Só por esta especulação, o filme já chamou a minha intenção, afinal sou uma aficionada por cinema, sim. Por cinema de horror, de suspense, de tramas mirabolantes e violência, ainda mais. Não consigo negar. E nem quero.

Sou alucinada por Quentin Tarantino, por exemplo. Amei Donnie Darko, de Richard Kelly. Sou louca por David Lynch (Twin Peaks é uma das melhores tramas da minha vida!). Oliver Stone. Michael Bay. Stanley Kubrick (quem nunca assitiu "O Iluminado" ou "Laranja Mecânica"???).

A cena responsável pelo desenrolar do 35mm da Macedônia (onde o filme acontece), logo nos primeiros minutos - escura, tensa e na minha opinião, tão duvidosa quanto o início - até que me fez concentrar, aguardando um algo a mais que, infelizmente, não aconteceu. Não desta vez, pelo menos. A seqüência das cenas me fez lembrar de um texto que li inúmeras vezes em sala de aula com alunos que eu tinha do "high-intermediate", que falava de anjos que resgataram três garotos de serem congelados até a morte na véspera de Natal. Para mim, e creio que, para meus alunos que leram o texto, nada daquilo era novidade.

Tudo se resume aos "sobreviventes" do purgatório (sim, porque se tivessem ido para o "paraíso" estariam cumprindo missões divinas e não vagando pelos arredores do planta Terra) que procuram por justiça. Aos sobreviventes fastasmas que adoram se materializar e assustar quem não tem muita fé no divino, ou aqueles que mantém sua fé em constante questionamento. Sobreviventes que vêm buscar o que já não podem mais levar. Ok, há alguns que vêm para desencarnar em paz e tentam resolver situações não resolvidas. Mas se já morreram, vão querer resolver o quê no mundo material? Que lavem suas roupas-sujas no mundo celestial ou infernal ou purgatorial mesmo! Aqui já tiveram a sua chance. Pelo menos é o que eu acredito.

E a cada cena, a cada tomada, a cada uso de câmera que não era novidade para mim e nem para o público em geral, creio eu, eu alimentava dúvidas. Questionamentos. Não sobre fé ou religião. Nada a ver com o mundo dos mortos também. Questionava dentro das minhas lembranças: "onde é que eu já vi isso mesmo?!". Depois de mais alguns minutos de concentração, cheguei à uma resposta satisfatória, pelo menos para minhas próprias concepções. Os personagens, o enredo, certas perfumarias e momentos específicos de edição, chavões e conclusão da trama criada por Manchevski vêm provavelmente do mesmo lugar-comum que vieram "Sexto Sentido", "Os Outros", "Noiva Cadáver", "Noviça Rebelde", "O Amor Não Tira Férias", "O Chamado", "Água Negra" e até "Todo mundo em Pânico". Dá para crer?!

Não que todas essas menções sejam necessariamente críticas. A questão é que "Sombras" não foi surpreendente, nem emocionante, nem inspirador para mim, no meu papel como espectadora, educadora (sim!!!) e jornalista formada (sim também!!!). Me senti apática quando as luzes, após exatamente 120 minutos, se acenderam. Me senti ultrajada com a luta indigesta entre o mocinho perturbado e o espírito do além que devíamos ter acreditado não ser do além (ha-ha-ha), segundo o diretor. Bizarra. Sei que o vocábulo não é muito próprio para esse texto, mas não pude encontrar outro melhor. Da mesma forma que o diretor também não encontrou uma trama melhor. Estamos os dois perdoados. Brasileira e Macedônico. Dois diferentes, mas iguais (sem quaisquer pretensões).

Sombras, de de Milcho Manchevski.
Macedônia / Alemanha / Itália / Bulgária / Espanha
120 minutos color, 35mm

criado por girli_e    16:41 — Arquivado em: Sem categoria
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