28/10/07
:: SoMbRaS, de Milcho Manchevski… parte II ::
Início duvidoso, estranho. Eu havia lido que a trama era sobre a pressão e a cobrança de não sermos o que esperam de nós, ainda mais quando há alguém da família que é muito bem-sucedido na mesma área. Que também tratava da questão de maturidade, de quando um homem se torna um homem de verdade. E principalmente abordava a questão da morte e do que vem com ela e depois dela. Só por esta especulação, o filme já chamou a minha intenção, afinal sou uma aficionada por cinema, sim. Por cinema de horror, de suspense, de tramas mirabolantes e violência, ainda mais. Não consigo negar. E nem quero.
Sou alucinada por Quentin Tarantino, por exemplo. Amei Donnie Darko, de Richard Kelly. Sou louca por David Lynch (Twin Peaks é uma das melhores tramas da minha vida!). Oliver Stone. Michael Bay. Stanley Kubrick (quem nunca assitiu "O Iluminado" ou "Laranja Mecânica"???).
A cena responsável pelo desenrolar do 35mm da Macedônia (onde o filme acontece), logo nos primeiros minutos - escura, tensa e na minha opinião, tão duvidosa quanto o início - até que me fez concentrar, aguardando um algo a mais que, infelizmente, não aconteceu. Não desta vez, pelo menos. A seqüência das cenas me fez lembrar de um texto que li inúmeras vezes em sala de aula com alunos que eu tinha do "high-intermediate", que falava de anjos que resgataram três garotos de serem congelados até a morte na véspera de Natal. Para mim, e creio que, para meus alunos que leram o texto, nada daquilo era novidade.
Tudo se resume aos "sobreviventes" do purgatório (sim, porque se tivessem ido para o "paraíso" estariam cumprindo missões divinas e não vagando pelos arredores do planta Terra) que procuram por justiça. Aos sobreviventes fastasmas que adoram se materializar e assustar quem não tem muita fé no divino, ou aqueles que mantém sua fé em constante questionamento. Sobreviventes que vêm buscar o que já não podem mais levar. Ok, há alguns que vêm para desencarnar em paz e tentam resolver situações não resolvidas. Mas se já morreram, vão querer resolver o quê no mundo material? Que lavem suas roupas-sujas no mundo celestial ou infernal ou purgatorial mesmo! Aqui já tiveram a sua chance. Pelo menos é o que eu acredito.
E a cada cena, a cada tomada, a cada uso de câmera que não era novidade para mim e nem para o público em geral, creio eu, eu alimentava dúvidas. Questionamentos. Não sobre fé ou religião. Nada a ver com o mundo dos mortos também. Questionava dentro das minhas lembranças: "onde é que eu já vi isso mesmo?!". Depois de mais alguns minutos de concentração, cheguei à uma resposta satisfatória, pelo menos para minhas próprias concepções. Os personagens, o enredo, certas perfumarias e momentos específicos de edição, chavões e conclusão da trama criada por Manchevski vêm provavelmente do mesmo lugar-comum que vieram "Sexto Sentido", "Os Outros", "Noiva Cadáver", "Noviça Rebelde", "O Amor Não Tira Férias", "O Chamado", "Água Negra" e até "Todo mundo em Pânico". Dá para crer?!
Não que todas essas menções sejam necessariamente críticas. A questão é que "Sombras" não foi surpreendente, nem emocionante, nem inspirador para mim, no meu papel como espectadora, educadora (sim!!!) e jornalista formada (sim também!!!). Me senti apática quando as luzes, após exatamente 120 minutos, se acenderam. Me senti ultrajada com a luta indigesta entre o mocinho perturbado e o espírito do além que devíamos ter acreditado não ser do além (ha-ha-ha), segundo o diretor. Bizarra. Sei que o vocábulo não é muito próprio para esse texto, mas não pude encontrar outro melhor. Da mesma forma que o diretor também não encontrou uma trama melhor. Estamos os dois perdoados. Brasileira e Macedônico. Dois diferentes, mas iguais (sem quaisquer pretensões).

Sombras, de de Milcho Manchevski.
Macedônia / Alemanha / Itália / Bulgária / Espanha
120 minutos color, 35mm
criado por girli_e
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