29/10/07
:: SePaRaDoS ::
Separados na Maternidade.
E quem é que vai dizer diferente?!

by Eli
febre raiva dor angústia estupidez apatia indiferença cú rancor bulimia infidelidade escarlatina injustiça platão pulso o pulso ainda pulsa ignorância cegueira lágrimas tuberculose anemia vingança inveja memórias incesto morte peido encefalite insuficiente marasmo chatice prisão covardia pesar úlcera solidão miséria fome roubo ódio matemática foda coqueluche hipocondria sífilis ciúmes asma cleptomania fim o pulso ainda pulsa doença greve mentira desdém crueldade caralho arrombado suicídio incerteza insegurança hipocrisia nó acidente derrota impaciência grito fingimento tortura não inferno sangue tolerância bastardo máscara espera demônio lepra reumatismo pediculose chagas chato pouco desconfiança demência fraqueza medo bosta esquizofrenia doação corte
Quinta-feira, 25/10. E lá fui eu, mais uma vez, me aventurar pelas ruas de Cerqueira César, acompanhada, para desfrutar de mais uma película que pudesse contribuir de alguma forma para minha essência e formação como ser humano. Destino? Cine Bombril, dentro do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, 2073.
Como não poderia deixar de ser, os filmes do mestre José Mojica Marins, o cineasta, produtor, diretor e também ator, conhecido mundialmente pelo seu personagem Zé do Caixão (ou Josefel Zatanas, como preferir) estavam na minha lista… Claro! Mas como eu não conseguiria chegar para a sessão das 19h10 (À Meia-Noite Levarei Sua Alma), pelo menos a sessão das 21h teria que ser garantida.

E eu tampouco poderia perder o adicional da palestra, às 23h, com o próprio "cão das trevas", que contava também com a presença de Dennison Ramalho, que co-escreveu o roteiro do novo filme do Zé do Caixão e que também participou do documentário amador realizado por mim, meu namorado e meu amigo Ivan… Pois é. E antes que eu me esqueça: no nosso documentário, que se chama "Cinema de Horrores", conta também com a participação do mestre Mojica, além de Arnaldo Jabor, Carlos Primati e Marina Person (cuja atuação foi a pior que poderíamos imaginar… Totalmente mulher-porta. Decepcionante! Mas… abafa!)… Egos inflados (nossos, não deles…). Enfim…
Continuando…
Totalmente tiete (sim, admito ter fraquejado neste momento…), fiz questão de sentar na terceira fileira (número 3), especificamente na poltrona de número 13! Para dar sorte, ué! E, correndo tudo bem, um sorriso estampado no rosto, o coração batendo a mil e confortada pelos braços de quem eu amo, o longa começa. Muita, muita emoção para mim… Detalhe: eu nunca tinha assistido "Esta Noite Encarnarei no Seu Cadáver". E posso dizer, com todas as sonoridades, letras e sintaxe necessárias: ACHEI PER-FEI-TO! Ainda mais considerando que toda aquela maravilha havia sido produzida com um investimento totalmente limitado, e ainda mais nos anos 1966!
O disparate e a conexão das cenas P&B e das cenas coloridas, que acontecem no inferno, são simplesmente de tirar o fôlego, pelo menos o meu fôlego. A produção é impecável! LEMBREM-SE: é uma produção trash, de baixo orçamento e realizada em 1966. Quem pudesse fazer melhor nas mesmas condições que atire a primeira cruz!
O filme terminou com a minha expressão botoxizada de sorriso permanente… E precisamente às 23h, caminhando de forma a respeitar seu próprio compasso, desce a rampa da sala escura (que já tinha suas luzes acesas) um senhor (de calças sociais pretas e camisa de mangas curtas amarela) que causa frisson, assovios e palmas, muitas palmas. Sim… O criador de Zé do Caixão. O Zé. Mas o Mojica (ele não gosta de ser chamado pelo nome do seu personagem, memorizem!).
Ao lado do cineasta e roteirista Dennison Ramalho e do produtor Fabiano Gullane, Mojica falou a respeito da produção de "Encarnação do Demônio", comentou cenas de tortura (por incrível que pareça, após uma pergunta sobre a cena de tortura mais bizarra, a resposta de Dennison Ramalho foi simples e direta: "Rato na buceta!". Simples assim. Fala sério… Agora só assitindo para ver.), disse como é trabalhar com um investimento que jamais trabalhara antes, das diferenças de ontem e hoje nos sets de filmagem, do destino de Zé, o do "Caixão".

Mojica também afirma que sua nova produção "vai meter medo", além de dizer que a inspiração do horror brasileiro está nos mares e matas que temos, nas crenças religiosas (umbanda, quimbanda) e místicas, na menina da favela que tem um caso com um senador, na madame que tem um caso com o marginal e na mistura das raças.
O mestre também disse que ele espera poder deixar um ensinamento que valha a pena para jovens talentos brasileiros, que possam, dignamente, dar continuidade ao cinema de horror nacional. Mas deixa bem claro: "Chaplin? Não há quem supere Chaplin. Hitchcock? Não há quem supera. Se vamos falar num Chacrinha… Não vai surgir quem supere. Então uma coisa é certa: pode ter o amigo do Zé do Caixão, o filho do Zé, o neto do Zé, mas não adianta ninguém tentar fazer o personagem porque vai cair no ridículo e o povo não vai respeitar. Então, no dia que eu partir, comigo parte o Zé. Zé, jamais haverá outro!"
Mas a noite ainda guardava uma surpresa fantástica (sim, mais!). No meio do debate, Mojica disse que gostaria de passar o trailer de "Encarnação do Demônio", e mais alguns minutos da demo da produção. E quem é que não se exaltou neste momento? Foi simplesmente uma delícia!!! E ao final dessa pequena mostra, lá estava eu, afogada em minhas próprias lágrimas (sim, admito que não me contive mais uma vez…). Sem demagogia ou exagero: foi muito emocionante. Uma sensação de "finalmente! Ele merece!!!".

Não posso deixar de admitir… Foi uma noite agradabilíssima, perfeita. Valeu muito a pena. E me serviu de calmante. Com certeza. Como? Oras, não fosse o comentário do meu namorado "amor, você está tão ‘bitolada’ na Mostra, que esqueceu que ainda há vida lá fora !!!", para me dizer algo que, não fosse a Mostra, ele não teria que me dizer (a estréia de "Jogos Mortais IV"), eu não teria parado para respirar e enxergar o horizonte. Mas não foi somente este comentário que me trouxe de volta ao mundo "real". Foi o alívio e o sentimento de missão cumprida após ter participado deste tão inesquecível debate (sim, sei que por vezes exagero um pouco em adjetivos…). Depois disso, assisti sim a outros filmes do festival. Mas este me bastou. Acalmou minha angústia e me libertou. Não de vez, por não quero ser libertada desse mundo cinéfilo jamais. Mas libertou minha visão. Outra vez.
ps. e eu juro, juro e juro que assim que saí da sala, após o debate, após as fotos, após o bate-papo em off com Dennison Ramalho, eu tirei meu celular da bolsa para ver se havia alguma ligação… E… não, não havia nenhuma ligação. Mas havia discado, por acidente (ou não): #666#. Ok… Abafa mais uma vez!