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21/11/07

:: CoiSaS dA mOdErNiDaDe ::

 

Meia-noite. Chega em casa. A porta não abre.

Esqueceu-se que, além da primitiva forma de abrir uma reles porta com uma não menos reles chave, havia se munido de um alarme que destrava os trincos internos daquela reles porta.

Coisas da modernidade.

Entra. Fecha a reles porta com a não menos reles chave. Ops. Quase se esquece que também precisava daquele não reles alarme para trancar a reles porta. Ou não haveria o porquê de ter gastado uma fortuna num não reles alarme, não fosse usá-lo. Questão de costume. Afinal, comprou-o há apenas duas semanas. Instalou-o há uma. Ninguém é obrigado a se acostumar com mudanças tão repentinas, ainda mais nos dias de hoje, onde as novidades do ontem já ocupam o museu do hoje. Nem se fala do amanhã.

Coisas da modernidade.

“Não fosse a modernidade, que seria de mim, de tu, d’ele? Nada”, diz, suspirando.

Despe-se ali mesmo, no hall de sua casa, que possui nenhuma cortina. Tudo vidro. E os vizinhos, Deus meu? Ora, que há eles, gente retrógrada? Tudo munido de vidros espelhados. Tão misterioso. Todos não te vêem e você vê a todos.

Misterioso. Sexy. Perturbador. Dor. Sim. Não. Hora te vejo. Hora te desejo. Dez. Eu sou! Tu és. Você? Seja. Caótico. Vidro do pecado. Perversão. Libido. Nudez. É. Só não diz que é quem se esconde de si próprio. Tens vergonha de tua natureza? Vexame. Enxame. Abelhas. Mel. Rainha. Eu tudo posso. Nada tenho. Quero tudo. Tenho nada. Só. Solidão.

E com esse último devaneio cheio de palavras, perturbadoras e imaginadas é que ela se deparou com sua própria realidade. Assustada, continuou.

Despiu-se, então. Roupas no cesto de roupas-sujas. Sujeira substantivo concreto e abstrato. Cabelos no hashi. Vermelho. Corpo nu. Na banheira de água turva. Quente. Lavanda. Banho demorado. Hidromassagem. Cara. Mas vale o bem estar. Espuma importada. Loção made in USA. Victoria’s Secret. Caro, muito caro. Mas vale o bem estar.

Coisas da modernidade.

“Não fosse o brilhantismo das mentes criativas de indústrias modernistas de cosméticos e aparatos hi-tech, que seria de mim, de tu, d’ela? Nada”, diz, relaxada.

Sai do banho. Seca-se. Envolve-se num roupão macio de tecido que não molha, não amassa e não rasga. Nanotecnologia.

Coisas da modernidade.

Segue até a cozinha, pensando no prato da madrugada, por que sim, para ela não há noite. Madrugada. Umedece seus pensamentos com as mais variadas opções. Salada. Grelhado. Temaki. Sashimi. Comidas asiáticas dos mais diversos tipos. Decide.

Chega até a geladeira, pega o número, o telefone, disca, pede, diz que não precisa de troco, desliga, espera. A comida chega. Ela come, se delicia; afinal, hoje em dia, há coisa mais saudável e na moda do que comida asiática? Claro que não, meu bem.

Coisas da modernidade.

Satisfeita, limpa tudo que foi resultado pelo não uso da cozinha, escova os dentes, vai até o mini-system, escolhe Alexkid e a melódica “Not every Angel” de quatro minutos, aperta o repeat, deixando o som entrar em suas veias. Vai até a geladeira e pega uma caixa de leite desnatado importado que comprara numa loja da Oscar Freire, enche sua taça de cristal favorita e toma seu último gole.

Coisas da modernidade.

Tem-se tudo, mas jamais escapa-se das fatalidades da vida.

Porque na vida não há espaço para “Não fosse o leite desnatado importado, que seria de mim, blá blá blá”.

Na vida há: “Fosse o leite integral, desnatado, o aguardente fraco, forte, água Evian, Nestlé, da torneira do bar da esquina que tem o cano enferrujado… morreríamos engasgados de qualquer jeito”.

all star… coisa da modernidade (ou nem tanto…)

criado por girli_e    20:47 — Arquivado em: Sem categoria
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