27/11/07
:: A ViNgAnÇa QuE SeDuZiU TaRaNtiNo ::

A princípio, logo na tomada da primeira cena de Oldboy, tem-se a impressão de que algo familiar a Kill Bill está prestes a acontecer. O céu cinzento, o personagem asiatizado, o clima de tensão, o alto de um prédio, assassinato. Mas não é a isso que se remete Tarantino. É que, segundo ele, apreciador da cultura asiática, Oldboy é o melhor filme de vingança produzido até hoje.
O formato anamórfico - filmes rodados em formato alargado, vulgarmente apelidados de cinemascope – juntamente com cenas em plano contínuo, contribuem para que o filme de Park Chan-uk não seja simplesmente mais um filme qualquer e sem impacto; muito pelo contrário. Pelas cores foscas e pálidas, pelo clima mórbido e fotografia proveniente de uma mistura entre filme antigo e recente, cria-se uma atmosfera que apesar de distante e fria, faz com que o espectador sinta aquecer na pele a tensão e a ansiedade.
“Sympathy for Mr. Vengeance” (2002) foi o primeiro da trilogia de Park – para os que não sabem – à qual Oldboy faz parte. E o tema vingança permanece.
Começando quase pelo fim, a história de Dae-su (Choi Min-sik), um homem que passou 15 anos enclausurado num quarto de uma casa localizada à mercê de quem assiste ou mesmo do próprio personagem e que almeja vingança, é o relatório contemporâneo de uma tragédia-grega, que choca com seu enredo e com suas cenas de violência e tortura, que apesar de serem mais sugeridas do que representadas em detalhes, causam aflição e desconforto. Segue-se então para a lógica cronológica: o início, meio e fim.
Face-a-face com o mundo do lado de fora, atrasado uma década e meia, possuidor de um corpo sensível à agentes externos e olhos sensíveis à luz do sol e munido pelo sentimento devastador de vingar-se a qualquer custo, o personagem principal confronta-se com um contraste cultural muito grande – social e até gastronômico. A cena em que ele ingere um polvo vivo, tendo até aquele momento só se alimentado com bolinhos, causa repulsa em muita gente, mas deixa claro a questão da diferença comportamental que rege a atmosfera do filme.
Determinado a ferir quem quer que se coloque em seu caminho, Dae-su coloca em prática a força acumulada durante os anos de prisão, em que treinava contra um contorno de ser-humano desenhado na parede – agredindo, torturando, matando. E, sabiamente, o diretor não faz com que apareça dentro da alma de quem assiste ao longa, aquele pensamento de que violência gera só mais violência, que à ela se combate com amor. Mas também não a glorifica. Ele desperta um sentimento de compreensão e curiosidade, apesar dos arrepios. Lembremo-nos de René-Girard dizendo que só é possível ludibriarmos algo que nos incomoda, fornecendo-lhe uma válvula de escape, algo para devorar. É exatamente isso o que as cenas sangrentas oferecem.
O desfecho surpreendente (lembra-se da tragédia-grega?), as seqüências que ilustram variados sentimentos humanos que geralmente ficam guardados na mente, em época de uma sociedade moderna, liberados somente em situações catárticas de ficção, e a trilha sonora que acompanha o estado de espírito do vingador e influenciam o público, não deletam e não se fazem ignorar um dos pontos relevantes da história: o romance. Sim, também há, além da primitiva arte das justiças pelas próprias mãos, uma história de amor. Convencional ou não, cliché ou não, quem assiste é quem deve decidir.
Ou não.
Oldboy (Oldboy– Coréia do Sul,2003) / ação anamórfica, 120 min
criado por girli_e
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