7/12/07
:: ImPéRiO dOs SoNhOs, bY dAviD LyNcH ::
Quem nunca ouviu falar de David Lynch?
Para entender um pouco a respeito deste polêmico diretor americano, basta estar familiarizado com quatro palavras: bizarro, sonho, fantástico e surrealismo. Sim.
E é exatamente uma combinação destes quatro vocábulos que definem o último longa produzido pelo criador de Twin Peaks, Império dos Sonhos (INLAND EMPIRE – sim, com todas as letras maiúsculas).
Com duração de três horas, presença de um elenco já conhecido por atuar em produções lynchianas (Laura Dern, de Cidade dos Sonhos (2001) e Grace Zabriski, de Twin Peaks) e muitos elementos fora do lugar-comum de Hollywood, Império dos Sonhos choca. Assusta. Confunde. Angustia.
Para quem aprecia as obras do diretor, o filme é mais uma grande obra de arte. Para quem não o conhece, passará a amá-lo ou odiá-lo. Para quem defende a posição anti-David Lynch, é mais do mesmo, mas pior.
Império dos Sonhos causa a sensação de quando temos um sonho estranho onde tudo, por mais estranho que seja, parece fazer sentido, mas que de repente, não mais. Tudo se altera, tudo se modifica, nada mais se encaixa. Mas que ao mesmo tempo compreendemos que é exatamente este o sentido: não fazer sentido algum.
Com câmeras trêmulas, luzes que estouram na tela, closes e um cenário teatral, a história de INLAND EMPIRE começa com uma garota (Karolina Gruszca) assitindo a um seriado de TV em que os personagens principais são os componentes de uma família de coelhos (seria uma referência à produção Rabbits criada anos atrás por Lynch?!). Qualquer semelhança com o personagem Frank, de Donnie Darko*, é mera coincidência. Qualquer semelhança entre a voz da coelha e a voz da atriz Naomi Watts, é fato.
Ao mesmo tempo, em Los Angeles, a atriz Nikki Grace (Laura Dern) recebe em sua mansão uma senhora com sotaque europeu bastante carregado (Grace Zabriskie). Alegando ser vizinha de Nikki e moradora de uma casa à beira da estrada, a visitante mostra indícios de insanidade com afirmações e visões que somente ela entende – o que acaba deixando a atriz bastante desconfortável e tensa.
Esses sentimentos ruins, porém, não se prolongam, já que na seqüência, Nikki Grace recebe uma ligação confirmando sua atuação em um filme chamado On High In Blue Tomorrows, de um respeitável diretor de cinema, Kingsley Stewart (Jeremy Irons, de A Casa dos Espíritos), o que a deixa completamente eufórica. Mas o que ela ainda não sabe é que o filme é um remake de uma produção polonesa tida como “amaldiçoada”, que não foi finalizada, já que seus protagonistas, além de terem se apaixonado, foram assassinados.
A partir de então, durante o processo de filmagem, fatos e seqüências totalmente surreais acontecem, muitas vezes não permitindo que o espectador e nem mesmo a própria protagonista (agora Sue Blue, uma mulher depressiva) saibam diferenciar o sonho da realidade.
Um dos exemplos desta implosão psicológica se dá quando Nikki/Sue vai até a casa de Devon Berk (Justin Theroux), seu companheiro de atuação, responsável pelo papel de Billy Side e diz a ele que o ama – na frente de seus amigos e esposa. Ela se vê entre a linha que separa o imaginário de sua personagem e o real de sua própria vida, de esposa e atriz.
O longa se desenvolve com falas concisas e impactantes de seus personagens, imagens borradas, cenas assustadoras de pesadelos, olhares insinuosos e uma trilha sonora basicamente melódica e de efeitos especiais, que apóia a idéia da confusão, da inquietação e do drama vivido por Nikki Grace/Sue Blue. O silêncio que toma conta de algumas cenas também ilustra essas sensações de maneira profunda. O silêncio incomoda. O silêncio fala.
Num conjunto de uma mistura de musical, com quadros de Salvador Dalí e Twin Peaks (muitas referências como a linguagem da sala vermelha e os rostos deformados como num surto psicótico), Império dos Sonhos vai além. Desafia quem o assiste. Testa o espectador. E no embalo de músicas de De Natura Sonoris, é possível acompanhar o desfecho da produção entrando e saindo do mundo real. Entrando e saindo do mundo imaginário. Olhando com desespero a última cena de On High In Blue Tomorrows, se encantando com a negra moradora de rua que de certa forma conforta a dor da personagem principal em sua fuga, realizando um ritual simplista de extrema unção numa calçada imunda das ruas de Hollywood.
Desta forma, para saber o que se encaixa, o que é insano, o que é são, o que é cinema, o que é factual, há de se assistir à produção de David Lynch e tirar suas próprias conclusões. Amar ou odiar. Impossível se posicionar de indiferente. O diretor não permite.
Império dos Sonhos/INLAND EMPIRE, de David Lynch
França, Polônia, EUA
197 minutos
2006
criado por girli_e
8:48 — Arquivado em: 
