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15/12/07

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ENTREGA, SUOR E TRAGÉDIA – O OTELO DO GALPÃO

Um pouco diferente do Otelo das páginas dos ensaios de Shakeaspeare ao qual estamos acostumados – considerando uma maioria de leitores, creio eu e assim como eu, um imaginário de homem exótico, durão, militar agressivo e ciumento – o Otelo da peça dirigida por Marco Antonio Rodrigues exala um encantamento e comoção tais que há de se esquecer de certa forma os adjetivos ‘pejorativos’.

Juntamente com sua amada, Desdêmona, Otelo cria como ator e personagem uma ligação nada distante com os espectadores que estão ali, sentados ao redor daquilo que não é um palco – e sim, chão. As mini-arquibancadas móveis também fazem certo sentido nesta troca de sentimentos angustiantes que há durante os 180 minutos de apresentação, entre elenco e platéia. O público sente que faz parte – as trocas de lugares, a água que espirra, a gota de suor que é vista a um palmo dos olhos, o grito que ecoa nos ouvidos, o trabalho de luz e transformação dos objetos.

A história é, basicamente, a que se conhece. Sim, é William Shakeaspeare, não é nenhuma adaptação modernista ou desafiadora da obra do mestre inglês. O detalhe da diferença se dá pela atmosfera que é criada, pelo calor dos atores, pela entrega de quem pagou para ver.

O ritmo não cansa – correria, personagens no chão, nas escadas laterais, na sacada acima de nossas cabeças, as cenas por entre vidros. O barulho do pé descalço no chão. E mesmo que a tendência fosse cansar, há os 15 minutos de descanço. Sair do teatro, fumar um cigarro, esticar as pernas, subir para o andar miniatura e comprar sanduíches naturais, bebidas saudáveis, gomas de mascar e chocolates. De volta à realidade-ficcional.

 
Otelo transpira cataratas. E isso atrai. O contato, a mistura de peles e etnias – Desdemona cor da manhã e o militar-protagonista, cor da noite. Detalhe que embeleza a olhos nus. Iago, o inimigo. Criada, a nua. A emoção é sentida em cada partícula de ar.

Esse trabalho de Marco Antônio, com cara de alternativo, de baixa-produção, é o toque de requinte sem ser clichetizado. E o custo espanta: assisitr a uma boa peça de teatro em São Paulo por menos de R$50,00 é duvidoso. Por Otelo, Desdêmona, Iago e Marco, não é.

Recomendadíssimo.

 

Otelo, de W. Shakespeare.

Direção: Marco Antônio Rodrigues.

180 minutos (15 minutos de intervalo)

criado por girli_e    0:08 — Arquivado em: Sem categoria

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