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5/7/08

:: NaVaLhA NoS pULsOs ::

 

Ela abre a porta. Olha ao seu redor e enxerga o mundo. Respirou fundo. E aquele ar que lhe penetrou os pulmões teve o efeito de um alucenógeno. Viu-se no topo do mundo. Literalmente. Olhou à sua volta e viu o azul dos céus. Olhou para baixo e viu seus coturnos, sujos e de solas ex-plataformas cortadas pelo sapateiro, pisando sobre o globo terrestre. Sentiu medo. E por isso, sentiu-se livre.

"When you were here before,
Couldn’t look you in the eye
You’re just like an angel,
Your skin makes me cry…"

Começou a caminhar. Andou em círculos por infinitos kilômetros. Mas não estava perdida. Sabia por onde andava. Escolheu assim. Parou. Olhou aquele objeto que estava escondido há tempos. Ele refletia a luz do sol e quase a cegou. Era um punhal. E vira aquele punhal lindo e atraente dentro daquela caixa enquanto ainda era criança. E ele a fascinava. Ela o comparava com aquele punhal que via sempre naquele quadro com a imagem de Maria de Jesus, com aquele punhal sagrado em seu coração, simbolizando a dor da morte de seu filho. Ela entrava em transe com aquele quadro. E ela entrava em transe todas as vezes que ELE abria aquela caixa proibida e a permitia tê-los em suas pequenas mãos… Prateado. Lindo.

"You float like a feather
In a beautiful world
I wish I was special
You’re so very special…"

Agaixou-se. Agarrou o punhal e sorriu. Olhou para cima e gritou. Seu grito era de dor. De pesares. De desespero. De frustração. De terror. Aliviou-se. Sorriu mais uma vez. Estava em sã e plena consciência. Viva. Gritou mais uma vez. E por mais tempo agora. E este grito simbolizava as alegrias de sua vida. Os encontros. Os desejos realizados. O poder. Os sorrisos e as risadas. Os amores. A música. A poesia. As viagens. As alucinações e os sonhos. As conquistas. E em milésimos de segundos cravou o punhal em seu pulso esquerdo. Sangrou. O grito cessou. As gotas de sangue começaram a cair sobre seus coturnos empoeirados.

"But I’m a creep,
I’m a weirdo
What the hell am I doin’ here?
I don’t belong here!"

Seus lábios começaram a ficar sem coloração. Quaisquer vestígios de emoções estampados em seu rosto sumiram. Cravou o punhal novamente no outro pulso. Sangrou mais uma vez. E desta vez, as gotas de sangue lhe mancharam a saia jeans de glitter que estava vestindo. Mas ela nem se incomodou. Já estava fora de seu corpo físico. Olhou em volta mais uma vez e se arrependeu. Viu sua carcaça ali, jogada, sangrando, pálida. Apesar de tudo ainda mantinha as características que encantava as outras pessoas. Não parecia um cadáver. Parecia ela mesma. Mas não aquela que o mundo enxergava. Aquela quem realmente era e nunca ninguém via. Uma fada. Talvez de Jonathan Strange and Mr. Norwell ou talvez não. Mas agora não interessa mais.

"I don’t care if it hurts,
I wanna have control
I want a perfect body
I want a perfect soul…"

Eram suas escolhas. E ela estava decidida a aprender a conviver com elas. A conviver e a se aceitar por elas. A aprender suas lições através da dor e do sofrimento. Porque fora uma garota má, apesar de infinitamente generosa quando queria ser. Infinitamente companheira, doce e especial quando assim escolhia ser. Sua essência era duvidosa e ela não se perdoava por isso. E sonhava, apesar de tudo, em aprender e melhorar para estar, em breve, ao lado daqueles a quem tanto declarou e ofertou seu amor.

"I want you to notice
when I’m not around
You’re so very special
I wish I was special…"

Ascendeu. Olhou e mirou lágrimas, dores, questionamentos, paixões, amores e ódio. Mirou ressentimento, mirou homenagem, mirou saudade, mirou DOR! DOR! DOR! E chorou. Pela primeira vez. E última. E desejou que tudo fosse conseqüência daquela noite de ácidos. Daquela noite de ervas. Daquela noite do Curaçau Blue. Daquela noite dos brindes. Daquela noite das tarjas pretas e do sangue de boi…

"She’s running out the door
She’s running out
She run run run run…
run…"

Esmoreceu. Fugiu por alguns segundos, assim. Parou e pensou: sim. É isso o que eu quero. Voltou e enfrentou a escolha que havia feito. E acredite… Por crer tanto, depois de tantas ranhuras… foi feliz. Fim.

"Whatever makes you happy
Whatever you want
You’re so very special
I wish I was special."

Ou pelo menos, achou que sim.

"But I’m a creep,
I’m a weirdo
What the hell am I doin’ here?
I don’t belong here

I don’t belong here…"

criado por girli_e    21:25 — Arquivado em: Sem categoria

8 Comentários »

  1. Você me arrepiou com isso que você escreveu.

    Comentário por Luiza — 5 05UTC julho 05UTC 2008 @ 22:04

  2. Oi. Fiquei preocupada com sua chegada em casa. Já estava meio tarde, não?…rs…
    Flutuei com o que você escreveu e também fiquei inquieta. Gosto de textos intrigantes. Como conversamos ontem, que têm a personalidade do autor.
    Agora aguardo ansiosa seu texto sobre nossa noite de risadas.
    Beijos no coração!!!

    Comentário por Kriz — 8 08UTC julho 08UTC 2008 @ 12:10

  3. Belíssimo texto.
    Belíssima música, a minha favorita em noites de dor e angústia.
    Doloroso sentimento.
    Enfim, adorei.

    “Sujando” meu comentário: FODÁSTICO!

    Comentário por Carol — 9 09UTC julho 09UTC 2008 @ 13:28

  4. CAROL: rs, ai, menina… adorei a palavra… vc sabe, né?! rs… Obrigada por elogiar o texto… Eu tbm amo esse texto. É a minha transparência neste momento :) beijos, querida!

    Comentário por girli.E* — 12 12UTC julho 12UTC 2008 @ 20:15

  5. KRIZ: não se preocupe… sou uma mulher valente, rs.. Correu td bem, cheguei bem… Explica o seu “flutuar” e a sua “inquietação”… Quero saber! Estou prestes a postar o “nosso” texto, rs… Beijos no seu coração tbm…

    Comentário por girli.E* — 12 12UTC julho 12UTC 2008 @ 20:17

  6. LUIZA: espero que o arrepio, por pior q possa ter sido, possa ter sido ao menos pq de certa forma vc gostou do que escrevi ;)… beijos!

    Comentário por girli.E* — 12 12UTC julho 12UTC 2008 @ 20:21

  7. Que história é esta? Maravilhosa.

    Comentário por Carlos — 12 12UTC julho 12UTC 2008 @ 22:19

  8. Oi, moça!
    Bem, flutuar com um texto é estar preso a ele e ao mesmo tempo fluir com liberdade através dele. Deixar-se levar e procurar descobrir onde aquelas palavras cabem em sua vida.
    São textos que nos “sequestram”, nos prendem impiedosamente.
    Deixam-nos inquietos, pois não sabemos qual será o final, ou, se haverá final.
    Continue escrevendo minha linda. Escrevendo coisas da alma, coisas suas. Isso faz com que possamos nos identificar com você, a autora, e também nos dá a oportunidade de viajar, viajar, viajar…
    Escreva muito, treine muito. Leia muito. Escrever também é exercício, é técnica. Você leva “jeito” pro “riscado”.
    Dois mil beijos em seus Mil Olhares!!!

    Comentário por Kriz — 13 13UTC julho 13UTC 2008 @ 14:14

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