2/8/08
:: A CoLeTiVa De EnCaRnAçÃo Do DeMôNiO parte I ::
Sentado na mesa longa que acomodaria os 06 integrantes (dentre eles Tito Liberato, representante da FOX FILM do Brasil; Milhem Cortaz, ator; Paulo Sacramento, Caio e Fabiano Gullane, produtores) a participarem da coletiva de imprensa, cabeça baixa e pensativo, vestindo camisa social laranja, unhas surpreendentemente curtas (com exceção da unha do dedão da mão esquerda), óculos de grau, cabelos (os que restam) e barba grisalhos, o famoso anel em forma de caixão e 72 anos de sabedoria, lá estava ele, o mestre do terror nacional.
José Mojica Marins, cineasta, ator, produtor, diretor e garoto-propaganda (fez um comercial para a NET Filmes anos atrás) parece um senhor recatado sentado ali, concentrado sabe-se lá em quê. Mas é só chegar a hora de começar a falar que tudo muda – “deixa todo mundo se apresentar e falar primeiro, porque se eu começar, ninguém mais fala”, diz. A descontração e o jeito espirituoso e bem-humorado do criador do personagem “Zé do Caixão” deixa todos à vontade e provoca risadas inspiradas a cada deboche. Ele cativa desde já. E não causa medo.
Após a apresentação dos seus companheiros da jornada final da trilogia que iniciou com em 1964 com o clássico “À meia-noite levarei sua alma” e que continuou em 1967 com “Esta noite encarnarei no teu cadáver”, Mojica encontrou a chance de expor a satisfação e o orgulho visíveis resultantes de sua mais recente, porém bastante antiga, produção. Antagônico? Sim! Totalmente “Mojica”.
Embevecido pelos elogios de Milhem Cortaz (“Não consigo descrever o enorme prazer de ter sido parte disso tudo, de ter trabalhado ao lado deste homem [José Mojica]”), de Paulo Sacramento (“Um filme em que há um feliz encontro de gerações, a lição de trabalhar com um mestre desses…”), de Tito Liberato e dos irmãos Gullane, o cineasta não se poupou de palavras, narrou experiências que aconteceram durante a produção do longa e durante outros momentos da sua vida enquanto tentava, insaciável, buscar meios para produzir o último filme da trilogia, falou da liberdade que teve pela primeira vez, de trabalhar sem censura ou restrições, da surpresa em terem que respeitar a carga horária diária de 8 horas de filmagens (“Justo no calor da cena, eles gritaram ‘corta!’ e eu gritei ‘o que é isto?’ – eu não estava acostumado com isso, assim como não estava acostumado a ver que cada um receberia uma marmitex individual na hora do almoço. Na minha época de filmagens, era cada um com seu próprio sanduíche de mortadela”), da seleção do elenco e do trabalho em conjunto com seus colegas presentes.

Usando o termo “fita” a todo o momento para se referir ao filme e às filmagens, José Mojica lembra da censura que fez com que ele alterasse a última frase que seu personagem “Zé do Caixão” falava, ao se afogar no lago, no final do segundo filme (final da década de 1960), de “Eu não acredito [na salvação por Cristo]!” para “Eu acredito!”, além de ter sido obrigado a incluir ao final da cena uma música sacra – caso contrário, a “fita” não seria liberada. Ele comenta também da primeira vez que obteve apoio para a continuação e finalização da saga de Josefel Zanatas, em 1967, quando tudo parecia correr bem para que o filme fosse produzido.
Para conseguir uma ajuda extra dos censores da época e impedir que seu trabalho fosse censurado pela ditadura, Mojica diz que freqüentava bailes com generais e se aproximava de seus filhos ou filhas para fazer amizade e conquistar, desta forma, o “exército”, tentando proteger suas criações.
No final da década de 1960, foi exigido do cineasta que ele alterasse o título de “Encarnação do Demônio”, o último filme da trilogia. Caso ele insistisse, assim que a obra ficasse pronta, seria queimada. Por não querer alterar sua essência, o filme foi interrompido por um tempo, até que, segundo o criador do “Zé do Caixão”, um americano chamado “Jaime-sei-lá-o-quê” se interessou pelas obras dele, após ter assistido a alguns de seus filmes e, “como americano podia tudo naquela época”, o filme foi liberado e a produção de “Encarnação” daria início em 1979. Mas não foi desta vez, novamente. O produtor “gringo” teve câncer e faleceu, não possibilitando a “fita” do mestre de se tornar real.
Neste meio tempo, conta José Mojica Marins, teve que fazer inúmeros trabalhos para sobreviver (daí a origem de seus filmes de sexo explícito), e de tempo em tempo, o roteiro de “Encarnação” ia sendo modificado. Até que ele conheceu Augusto de Cervantes, se animou, achando que seria a hora de finalmente lançar a conclusão da saga de seu personagem, mas mais uma vez, nada deu certo. Cervantes também faleceu e segundo Mojica, “ele era solteiro, sem esposa nenhuma, sem filhos, sem sócios, sem ninguém que pudesse assumir o investimento por ele e realizar a minha fita”. Mais um investidor que enfrentou a fatalidade do destino, deixando a produção do filme abandonada.
JMM continua sua narrativa dizendo que entrou na década de 1990 realizando as “Noites do Terror” do Playcenter – antigo e popular parque de diversões temático na zona oeste da cidade de São Paulo, participando de vídeo-clipes de bandas de rock – tudo pela sobrevivência.
E foi também nesta época que ele conheceu Ivan, que surgiu interessado em investir no longa, mudou o roteiro mais uma vez, “chegou a todo vapor”. “E desta vez”, disse JMM, “acreditei que realmente fosse dar certo. Mas tive que saber primeiro se Ivan tinha dinheiro, porque sem dinheiro, não dava”. E ele tinha. Então o momento estava propício – dinheiro existia e o livro “Maldito: a Vida e o Cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão”, de Ivan Finotti e André Barcisnki, “já estava na praça”. Tudo acontecendo no final do ano de 1998. “Após muito tempo sem dinheiro, consegui comprar um terno de linho, branco. E esta era a oportunidade de usar. Organizaram um almoço para comemorarmos que tudo ia finalmente acontecer. Coloquei meu terno e estava para sair de casa quando me ligaram dizendo, ‘então, Zé… Sabe o almoço? Pois é. Virou velório. Ivan acaba de falecer. Morreu de emoção". Troquei de terno. Tive que colocar um preto para ir no enterro. Mais uma vez seria impossível realizar o sonho”.
Deixando todos impactados com tantas mortes cercando a produção de “Encarnação do Demônio”, é impossível deixar de remeter a morte do ator Jece Valadão com a produção (o ator faleceu em decorrência de insuficiência respiratória, em novembro de 2006, ao final das gravações do filme). Lei da atração? Azar? Poltergeist? Enfim… É “Zé do Caixão”.
criado por girli_e
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